Parar..

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Há dias em que é obrigatório parar para escutar a nossa voz interior.

Dias em que nada mais é importante, senão parar e escutar.

As memórias boas que chegam sem ser chamadas, as sensações de infância que já não sabíamos reconhecer, as imagens de um passado em que nos sentíamos bem sem sequer questionarmos nada. É como que o regressar a uma mente mais jovem e sem filtros ou experiencias que apenas nos servem de alerta e nos retiram a simplicidade das coisas que nos rodeiam.

É emergente dar lugar a esse “obrigatório parar”. Não importa se é domingo ou se temos a agenda cheia. Nestes dias a escolha não é nossa e aquilo que parece ser falta de energia, nada mais é do que a emergência do parar, só porque sim. Porque já chega de seguir em frente sem objectivo, sem razão nem coração.

É o pôr tudo na balança. Quantas vezes o fazemos?

O recolhimento do corpo e da alma. A sensação de que já era tempo de sentir paz e de a viver nem que fosse só por hoje.

Não escolhemos o momento. Apenas paramos e damo-nos conta de uma viagem sem destino, com a cabeça a viajar por momentos bons e dispersos, como se a memória nos estivesse a abanar.

E se nos abana! Leva-nos de volta ao essencial.

Faz-nos voltar a sentir que vale a pena e que todos os obstáculos são pequenas cancelas de portões que nos parecem altos nos dias normais, mas que neste momento revelam a sua real proporção.

Nestes dias em que algo nos obriga a parar não sentimos solidão ou tristeza, incompreensão ou dúvida. Sentimos a força a voltar e a querer recuperar o espaço que foi perdendo com a azáfama do caminho pelo qual decidimos ir.

Hoje os caminhos são vários e voltam a surgir nítidos num desenho imaginário mas palpável, como uma tela gigante onde podemos observar as opções e escolher um novo rumo.

Apesar da sensação de paz aparente, nestes dias, o rodopio de imagens e de memórias cruzam-se e atropelam-se sem ordem muito óbvia, mas tudo se encaixará e voltará a fazer a mente pensar de forma pausada e compassada. Ou agitada e confusa e desordeira, mas isso será depois e neste momento eu parei e estou no aqui.

Às vezes é mesmo preciso parar..

Maria Portugal